A agricultura mundial vive um momento de transição. Durante décadas, a dependência de fertilizantes nitrogenados sintéticos foi considerada indispensável para garantir altas produtividades. No entanto, os impactos ambientais e econômicos desse modelo tornaram-se cada vez mais evidentes. Nesse cenário, o trabalho da microbiologista brasileira Dra. Mariangela Hungria, pesquisadora da EMBRAPA, ganhou destaque internacional ao ser reconhecido com o World Food Prize 2025, prêmio frequentemente descrito como o “Nobel da Alimentação”. Sua pesquisa pioneira em Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) mostra que a solução para uma agricultura mais sustentável pode estar no próprio solo.

https://www.revistavoix.com/wp-content/uploads/2022/03/logo.png - Mariangela Hungria e a Revolução Sustentável na Agricultura -
Cientista que trabalha no Paraná recebe o Nobel da Agricultura – A engenheira agrônoma e pesquisadora do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (NAPI) Taxonline, da Fundação Araucária, Mariangela Hungria, foi agraciada nesta terça-feira (12) com o Prêmio Mundial da Alimentação de 2025, o World Food Prize

A importância da Fixação Biológica de Nitrogênio

O nitrogênio é um dos nutrientes mais essenciais para o crescimento das plantas. Tradicionalmente, sua disponibilidade no solo é garantida por meio de fertilizantes industriais, cuja produção é altamente intensiva em energia e responsável por emissões significativas de gases de efeito estufa. A Fixação Biológica de Nitrogênio, por outro lado, é um processo natural em que bactérias específicas capturam o nitrogênio da atmosfera e o disponibilizam para as plantas. Esse mecanismo, além de reduzir custos, diminui a dependência de insumos químicos e contribui para a preservação ambiental.

Hungria dedicou sua carreira a estudar e desenvolver tecnologias que potencializam esse processo. Mais de 30 soluções biológicas foram criadas sob sua liderança, aplicadas em culturas como a soja e outras leguminosas, especialmente na América do Sul. O impacto é tão expressivo que, segundo estimativas da World Food Prize Foundation, essas tecnologias já são utilizadas em mais de 40 milhões de hectares no Brasil, gerando uma economia anual de aproximadamente US$ 40 bilhões aos agricultores e evitando a emissão de cerca de 180 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano.

Cultivo de soja com uso de inoculantes biológicos

A trajetória de uma pesquisadora visionária

Formada em microbiologia, Mariangela Hungria construiu sua carreira na EMBRAPA, instituição referência mundial em pesquisa agropecuária. Seu trabalho não apenas consolidou o Brasil como líder em agricultura tropical sustentável, mas também demonstrou que ciência e inovação podem caminhar lado a lado com práticas naturais. Ao longo das décadas, Hungria enfrentou desafios como a resistência inicial de setores da indústria de fertilizantes e a necessidade de convencer agricultores sobre a eficácia das soluções biológicas. Hoje, seus resultados falam por si: milhões de hectares cultivados com menor impacto ambiental e maior rentabilidade.

Laboratório de microbiologia da EMBRAPA

Impactos econômicos e ambientais

O modelo tradicional baseado em fertilizantes sintéticos apresenta custos elevados e riscos ambientais. A produção desses insumos exige grandes quantidades de energia, geralmente proveniente de combustíveis fósseis, e contribui para a emissão de gases de efeito estufa. Além disso, o uso excessivo de fertilizantes pode causar poluição de rios e lagos, afetando ecossistemas inteiros.

As tecnologias desenvolvidas por Hungria oferecem uma alternativa viável e comprovada. Ao reduzir a necessidade de fertilizantes industriais, os agricultores economizam recursos financeiros e contribuem para a mitigação das mudanças climáticas. Essa abordagem também fortalece a imagem do Brasil como potência agrícola comprometida com práticas sustentáveis.

O Brasil como referência mundial

O reconhecimento internacional de Mariangela Hungria reforça o papel do Brasil como protagonista na agricultura tropical. O país, que já é líder mundial na produção de soja, café e outras commodities, agora se destaca também pela adoção de práticas sustentáveis. A Fixação Biológica de Nitrogênio tornou-se um exemplo de como ciência aplicada pode transformar a realidade de milhões de produtores e, ao mesmo tempo, contribuir para a segurança alimentar global.

Plantação de soja no Brasil

A ciência como motor da sustentabilidade

O trabalho de Hungria mostra que soluções de alta tecnologia podem surgir de processos naturais. A microbiologia do solo, muitas vezes invisível aos olhos, desempenha papel fundamental na produtividade agrícola. Ao estudar e potencializar esses microrganismos, a pesquisadora abriu caminho para uma agricultura mais eficiente e menos dependente de insumos externos.

Esse modelo também dialoga com tendências globais, como a busca por alimentos produzidos de forma sustentável e a necessidade de reduzir a pegada de carbono da agricultura. Em um mundo cada vez mais preocupado com os impactos ambientais, a Fixação Biológica de Nitrogênio representa uma resposta concreta e escalável.

O futuro da agricultura sustentável

Embora fertilizantes sintéticos ainda sejam utilizados em larga escala, o trabalho de Hungria demonstra que alternativas biológicas podem reduzir significativamente essa dependência. O futuro da agricultura passa por modelos híbridos, em que soluções naturais e tecnológicas se complementam. A adoção em larga escala da Fixação Biológica de Nitrogênio pode transformar não apenas a economia agrícola, mas também a relação da humanidade com o meio ambiente.

Bactérias fixadoras de nitrogênio em microscópio

Reconhecimento internacional

O World Food Prize é considerado o mais importante prêmio global na área de alimentação e agricultura. Criado em 1986, já homenageou cientistas, líderes e inovadores que contribuíram para avanços significativos na segurança alimentar. Ao receber essa distinção em 2025, Mariangela Hungria entrou para um seleto grupo de personalidades que moldaram o futuro da produção de alimentos. Seu trabalho é celebrado não apenas como uma conquista científica, mas como um legado para as próximas gerações.

A trajetória de Mariangela Hungria é um exemplo inspirador de como ciência, inovação e sustentabilidade podem caminhar juntas. Ao transformar microrganismos do solo em aliados da agricultura, ela mostrou que soluções revolucionárias podem estar escondidas nos processos naturais mais simples. O reconhecimento internacional reforça a importância de investir em pesquisa e desenvolvimento, especialmente em áreas que unem produtividade e preservação ambiental.

O Brasil, por meio da EMBRAPA e de pesquisadores como Hungria, consolida-se como referência mundial em agricultura tropical sustentável. Mais do que um prêmio, o World Food Prize 2025 simboliza a esperança de um futuro em que a produção de alimentos seja eficiente, acessível e ambientalmente responsável. A Fixação Biológica de Nitrogênio não é apenas uma tecnologia: é um caminho para equilibrar as necessidades humanas com os limites do planeta.