Normah: O que se descobre num chá da tarde com a manicure..
O que se descobre num chá da tarde com a manicure.
Há quem diga que, neste exacto momento, em algum lugar do mundo, alguém pensou exactamente o mesmo que tu acabaste de pensar.
Bizarro, mas reconfortante.
Pelo menos foi isso que defendeu o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Li isso ontem à noite e, confesso, senti-me imediatamente mais sofisticada. Ler Jung tem esse efeito estranho: faz-nos parecer inteligentes mesmo quando estamos apenas de pijama a comer bolachas.
Hoje decidi fazer algo ligeiramente mais civilizado.
Combinei um chá da tarde com a minha manicure.


Sim, eu sei. Algumas pessoas vão ao psicólogo. Eu faço as unhas e resolvo metade da vida.
Encontrámo-nos à porta do El Corte Inglés, naquele ponto de Lisboa onde tudo acontece ao mesmo tempo: carros, turistas, executivos atrasados e pessoas que fingem não estar perdidas.
Mas o nosso destino estava logo ali em frente, a poucos passos da estação de metro de São Sebastião.
Crush Donuts.
Se saíres do metro de São Sebastião na Avenida António Augusto de Aguiar em direcção ao El Corte Inglés, vais vê-lo quase imediatamente. Não há como falhar. A montra cheia de donuts coloridos denuncia o lugar antes mesmo de chegares à porta.
Entrar no Crush Donuts é uma experiência curiosa. Parece que alguém pegou num café nova-iorquino, misturou com pastelaria americana e depois colocou tudo no meio de Lisboa, com aquele ar esteticamente perfeito que faz qualquer pessoa pegar no telemóvel antes mesmo de pegar no guardanapo.
E depois há os donuts.
Meu Deus, os donuts.
Alinhados no balcão como pequenas tentações organizadas. Brilhantes. Generosos. Absolutamente desnecessários para quem tem qualquer tipo de autocontrolo.
Claro que eu não tenho.
Escolhi um donut de crème brûlée e um chocolate quente com chantilly a escorrer pelo copo.
A Taty foi pelo tiramisù com um caramel latte.
Duas decisões excelentes, diga-se.
Sentámo-nos perto da montra, onde dá para observar Lisboa a acontecer enquanto o açúcar começa lentamente a resolver problemas emocionais.
Conversa vai, conversa vem, a Taty começou a falar da infância.
Pais separados.

Aquelas histórias que parecem simples quando contadas, mas que deixam pequenas rachaduras invisíveis na forma como uma pessoa se vê.
O pai dela esteve sempre presente. Sempre.
Tratou-a como uma princesa.
Mas há uma diferença subtil que quase ninguém comenta: ela viu um pai a amar uma filha… mas nunca viu um homem apaixonado a amar uma mulher.
Nunca viu aquele tipo de amor que faz um homem atravessar uma sala só para tocar no braço de alguém.
Nunca viu o modelo.
E as coisas que não vemos também nos ensinam muito.
A Taty contou-me dos relacionamentos falhados, das migalhas emocionais que aceitou durante anos.
Eu ouvia, mergulhando ocasionalmente o donut no chocolate quente como se aquilo fosse uma actividade perfeitamente normal.
E talvez seja.
Porque há algo estranhamente terapêutico em conversar sobre a vida enquanto se come um donut absurdamente bom.
À nossa volta, o Crush Donuts estava cheio de pequenas histórias.
Um casal a dividir um red velvet.
Uma rapariga sozinha com um portátil e um latte gigante.
Duas amigas a rir alto demais para uma quarta-feira à tarde.
Foi nesse momento que pensei uma coisa muito simples: precisamos disto mais vezes.
Não apenas donuts.
Pausas.


Momentos em que duas mulheres se sentam, falam da vida, dizem verdades desconfortáveis e depois continuam a rir como se nada fosse.
Quando saímos, Lisboa continuava exactamente igual.
Barulhenta. Apressada. Indiferente.
Mas eu saí com uma certeza muito clara.
Se um dia precisares de parar um pouco ou simplesmente de comer algo perigosamente bom, entra no Crush Donuts.
Só não te atrevas a ir para lá de dieta.
Por: Normah
Texto revisado por: Revista Voix
Redes Sociais & Contato:





