Uma história de Moda que virou um Movimento.
Depois de mais de duas décadas vivendo a moda por diferentes ângulos, Ruane Ballmant transforma sua experiência em um novo propósito: criar uma rede de moda circular que conecta sustentabilidade, geração de renda e impacto social.
Por mais de duas décadas, Ruane Ballmant esteve do outro lado do cabide.
Filha de costureira, cresceu entre tecidos, linhas, aviamentos, revistas de moda e o fazer artesanal. Aos 17 anos, iniciou sua formação em Design de Moda e começou a construir uma trajetória que atravessaria diferentes universos: criação, styling, música, imagem e direção de arte.
Como cantora, encontrou uma maneira singular de unir suas duas grandes paixões. Seus espetáculos, inspirados em diferentes épocas da moda e da música, chamaram a atenção de grandes nomes do mercado, levando-a a realizar trabalhos e apresentações para marcas como Dolce & Gabbana, Diane von Furstenberg, Le Lis Blanc, Jean Paul Gaultier e Givenchy, além de parcerias com revistas como Vogue e Glamour.
Mas, depois de tantos anos ajudando a criar desejo em torno da moda, uma nova pergunta começou a surgir:
E se agora fosse possível usar a moda para criar consciência?
Foi dessa pergunta que nasceu a UP!
“Eu passei mais de 20 anos ajudando a criar desejo pela moda. Hoje quero ajudar a criar consciência sobre ela.”
Você praticamente nasceu dentro da moda. De onde vem essa relação?
Minha relação com a moda começou muito antes de eu entender que aquilo era moda.
Minha mãe era costureira e trabalhava nos fundos da loja de roupas que tínhamos. Eu ficava por ali, fascinada por aquele universo. Organizava linhas e tecidos por cores, separava botões e recolhia do chão os pequenos retalhos que sobravam da costura para fazer roupinhas para as minhas bonecas.
Foi nesse ambiente que comecei também a desenhar meus primeiros croquis.
Aos 17 anos, minha mãe me presenteou com meu primeiro curso de Design de Moda. Quando recebi meu diploma, fui atrás de um estágio e, por uma dessas coincidências bonitas da vida, descobri que uma grande estilista mineira, Iorane Rabello, tinha sua fábrica no mesmo bairro onde eu morava. Bati naquela porta e ela se abriu.
Passei três anos como sua assistente e descobri que a moda era um universo muito maior do que eu imaginava. Iorane me apresentou às possibilidades que eu sequer sabia que existiam e me ensinou muito sobre criação, produção e sobre o próprio universo da moda.
Até que a música começou a me chamar mais forte.
Quando a moda encontrou a música!
Foi então que deixei a marca e comecei a trabalhar como cantora na noite paulistana, interpretando jazz e bossa nova.
Mas logo percebi que não precisava escolher entre minhas duas paixões.
Eu poderia unir música, moda, personagens e estética em uma única linguagem.
Foi assim que, em 2011, nasceu meu primeiro espetáculo, “Je Suis D’aqui”, uma mistura de referências da cultura francesa, da música brasileira e da estética da Belle Époque.
Comecei a levar esses personagens para teatros, casas de shows e eventos em São Paulo. Depois vieram outras criações inspiradas em diferentes épocas, como a Era de Ouro do cinema e a estética do Old Hollywood.
E aquilo começou a chamar a atenção do mercado da moda.
Uma coisa foi levando à outra, até que aqueles personagens passaram também a fazer parte de eventos de grandes marcas e publicações.
E a menina que brincava com os retalhos da mãe começou a viver, de alguma forma, dentro daquele universo que um dia só conhecia pelas revistas.
“Eu fazia parte daquele mundo não pelo meu status social, mas pela linguagem que havia construído por meio da arte.”



Você chegou a trabalhar com algumas das grandes marcas do mercado. Como foi viver esse universo por dentro?
Quando saí de Belo Horizonte e me mudei para São Paulo, entrei em contato com um mundo completamente diferente daquele que eu conhecia.
Uma coisa que me chamou atenção foi perceber que as pessoas não estavam necessariamente interessadas em saber de onde eu vinha, mas no que eu fazia.
E eu havia criado uma personagem que, de certa forma, parecia ter saído das próprias revistas que eu admirava.
Meu estilo, construído ao longo dos anos, unido à música de época, aos figurinos e aos clássicos que eu cantava, criou uma linguagem muito particular.
Foi um verdadeiro boom.
A cada apresentação em um evento de moda ou televisão, eu era recebida quase como a própria Diva da noite.
E muitas vezes eu pensava naquela menina que recolhia os retalhos no chão do ateliê da mãe.
Era uma imagem muito simbólica: os retalhos que um dia eu recolhia para brincar agora faziam parte da minha própria linguagem artística.
E então veio a virada.
Quando você começou a olhar para a moda de outra maneira?
Em algum momento percebi que a personagem que eu havia criado havia se tornado maior do que aquela menina que amava o fazer artesanal e o processo criativo. Comecei também a olhar para a indústria por outro ângulo.
Eu havia passado anos participando de um mercado que, muitas vezes, estimula o desejo de consumir cada vez mais, mais rápido e em maior quantidade.
E pensei: com todo esse conhecimento e essa experiência, eu posso fazer muito mais.
Foi através de um processo pessoal de voltar para a minha essência e entender melhor o que realmente
Queria deixar no mundo que surgiu uma percepção muito forte:
Depois de tantos anos recebendo tantos frutos da moda, eu queria devolver à moda um pouco de tudo o que ela me deu.
E foi dessa vontade de devolver que nasceu a UP!



MAS, AFINAL, O QUE É A UP!?
A UP! É uma rede de moda circular e impacto social criada para fazer roupas de qualidade que estão paradas voltarem a circular, evitando desperdício e transformando aquilo que já existe em novas possibilidades.
Mas a UP! não é apenas sobre vender roupas usadas.
É sobre criar um ciclo.
- DOAÇÃO + LOTES
↓
- CURADORIA
↓
- VENDA SECOND HAND
↓
- REVENDEDORAS UP!
↓
- GERAÇÃO DE RENDA
E aquilo que não segue para comercialização continua circulando:
UP! Solidário
Peças em condições de uso são destinadas a famílias e instituições que precisam.
UP Atelier
Materiais que não podem mais ser vendidos ou doados podem ganhar uma nova vida por meio do upcycling, transformando-se em ecobags, acessórios e novas peças, com a participação de costureiras e artesãs locais.
Nada é descartado antes de perguntarmos: o que mais isso pode se tornar?
“A roupa é apenas o ponto de partida.”



A UP quer vender roupas usadas. Por que isso é muito maior do que um brechó?
Porque a roupa é apenas o ponto de partida.
Um brechó tradicional pode colocar uma peça novamente à venda. A UP quer construir uma rede em torno dela.
Uma roupa pode começar com alguém que decide abrir espaço no próprio armário.
Depois passa pela curadoria, chega a uma revendedora, gera renda para uma mulher, encontra um novo consumidor e continua circulando.
Se não puder ser comercializada, pode chegar a alguém que precisa.
Se não puder ser doada, pode ser transformada.
Uma única peça pode movimentar várias pessoas e gerar diferentes formas de impacto antes de chegar ao fim de seu ciclo.
É isso que queremos construir:
Quem doa → quem compra → quem revende → quem costura → quem recebe → quem transforma.
Todos conectados por um mesmo ciclo.
REVENDER TAMBÉM PODE SER UMA FORMA DE TRANSFORMAR! Quem são as revendedoras UP!?
Estamos criando uma rede para mulheres que buscam uma oportunidade de geração de renda com mais autonomia e flexibilidade.
Donas de casa, mulheres da comunidade, aposentadas, mães, mulheres que precisam conciliar trabalho e família ou simplesmente aquelas que desejam começar uma atividade própria.
A inspiração vem das antigas “sacoleiras”:
Mulheres que construíram sua própria renda levando produtos para suas redes de relacionamento.
Mas agora existe uma nova estrutura por trás dessa ideia:
Marca + curadoria + produtos + treinamento + rede + propósito.
A revendedora UP! Não precisa ter uma loja física. Ela pode começar com sua própria rede de contatos e vender no seu ritmo, recebendo uma porcentagem sobre as peças comercializadas.
“Não queremos apenas criar consumidoras. Queremos criar oportunidades para que outras mulheres também possam empreender.”



POR QUE A BASE DA UP! É EM MISIONES/ARGENTINA?
A UP! começa em um território onde regeneração já faz parte da nossa história.
A primeira operação da UP! Nasce em Misiones, Argentina, região onde também está sendo desenvolvido o projeto Eco Chácara ParaIsso, dedicado à regeneração da terra, sustentabilidade e desenvolvimento de iniciativas sociais.
A escolha não foi por acaso.
A UP! nasce dentro de uma visão maior de regeneração, porque acreditamos que não basta cuidar apenas do planeta ou apenas das pessoas. Precisamos cuidar dos dois.
O conceito se conecta de forma natural:
- ECO CHÁCARA PARAÍSO – Regenera a terra.
- UP! – Regenera o ciclo da roupa.
- UP! Solidário – Fortalece as pessoas.
- UP! Atelier – Transforma materiais e cria oportunidades.
E, a partir de Misiones, a ideia é construir conexões com outras regiões, começando por São Paulo e Belo Horizonte, além de receber doações e criar novas conexões na Europa.
E SE UMA ROUPA PUDESSE MUDAR UMA VIDA?
Essa é uma das perguntas que movem a UP.
Porque, quando olhamos para uma peça esquecida no fundo de um armário, podemos enxergar apenas uma roupa que não usamos mais.
Mas podemos também enxergar:
- Uma oportunidade de renda;
- Uma nova história;
- Uma doação;
- Uma matéria-prima;
- Uma ecobag;
- Uma nova empreendedora;
- Ou simplesmente menos uma peça indo parar no lixo.
Afinal, o que você gostaria que a UP transformasse?
Eu gostaria que as pessoas percebessem que sustentabilidade não precisa ser algo distante, complicado ou reservado às grandes empresas.
Ela pode começar dentro do nosso próprio armário. Uma roupa que já existe pode continuar circulando.
Uma mulher pode encontrar uma nova forma de gerar renda. Uma peça que seria descartada pode virar uma ecobag.
Uma doação pode chegar a quem realmente precisa.
E, no fundo, a UP nasceu de uma ideia muito simples:
Nada precisa terminar onde imaginamos que termina. Tudo pode ganhar um novo propósito.
Talvez seja essa a maior transformação que queremos provocar:
Mudar a forma como olhamos para aquilo que já temos.
Porque, quando mudamos o olhar, mudamos nossas escolhas. E, quando mudamos nossas escolhas, começamos a mudar o mundo.
“NA UP! NADA SE PERDE! TUDO SE TRANSFORMA.”
Estamos construindo um movimento, e você pode fazer parte dele.
Por: Ruane Ballmant
Texto revisado por: Revista Voix
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